houve um tempo em que lia e falava e ouvia e pensava e as palavras pareciam fáceis... e simples.
depois cresci e aprendi a usar as palavras e a entender melhor os seus significados.
depois passei a ouvir e a falar ainda mais e aprendi que as palavras podem ter significados muito permanentes e que podiam ser usadas como armas letais... ora se degladia, ora se ganha, ora se perde...
numa batalha de pessoas e palavras há uma que vai sempre destinada a ser a perdedora. há quem seja sempre perdedor pelo simples facto de ganhar constantemente... e há quem seja um ganhador quando perde.
entretanto aprendi que falar e ouvir é ainda mais impressionante. é que o facto de verbalizarmos (ou escrevermos) ideias e pensamentos para outra(s) pessoa(s) nos faz tantas vezes sentir de imediato o quão ridícula era a nossa presunção ou a nossa ideia; ou de outra forma, quando falamos (ou escrevemos) as nossas banalidades e as ouvimos vindas de nós próprios, estas ganham novos significados e passam depois a ser mto importantes. às vezes demasiado.
penso que um dia fui mesmo um dos cães cobaia do pavlov. sou mesmo mto pavloviana. reajo bruscamente a mtas palavras: amor, paixão, amizade, pureza, prometo, juro, ódio, raiva, jogo, vencer, perder, baixar as armas, paz, felicidade, filhos, momento, vida, morte, suicídio e nunca ou sempre... (alguns exemplos apenas)
e depois esqueço-me de medir as minhas quando falo de coisas que não me dizem nada, mas que a outras pessoas dizem tanto: sexo, parvo, idiota, gay, lésbica, drogas, burro, quero, desejo, dinheiro, posso, talvez, não sei, não quero saber, tanto me faz, cala-te, deixa-me, sim, não, vou ...(alguns exemplos).
é nas palavras que me vejo egocêntrica, egoísta e individualista. e é através delas que me ridicularizo incessantemente, ansiosa numa busca de libertação de tanto lixo acumulado e sem sentido. e eu vou falando e vou libertando, sem me importar com quem firo ou atinjo. e penso que não faz mal: mas faz! mas no fundo não faz, porque se não o fizer elas ganham espaço dentro deste vazio sem gravidade e vivem dentro de mim, tristes e sem repouso... e assim eu liberto-as de mim e deixo-as cá fora, prontas a ganharem espaço dentro do vazio igualmente absorvente das outras pessoas.
é uma merda isto. mas se não houvessem palavras eu nem sequer tentava falar. ficava assim, no meu silêncio, onde tanto eu gosto de me ouvir e gosto que os outros me oiçam também.
mas é uma merda. no fundo, estou presa nas palavras e não sigo para onde me quero dirigir. ganho medos e perco pontos... sei lá!
por falar em palavras, sinto falta de ti João... tu sabes... nem sei se vens de vez em quando ver-me no meu blog. se já me esqueceste (conseguiste?). mesmo nunca mais te falando João, mesmo nunca mais me ouvindo João, as palavras que eu te quero dirigir ainda vivem dentro de mim. e aqui vão permanecer, a vaguear, sem rumo, sem porto que as abrigue, sem ti João. sem ti. ficam aqui, junto com todas as outras que me dirigiste. e por aqui vão ficando. ganhando pontos, cada vez que me debruço sobre elas. e um dia elas deitam-se comigo e nunca mais nos acordam...
e neste momento eu fiz uma longa pausa em que fechei os olhos e senti (e deixei escorrer livremente as lágrimas) e pensei: quem me dera um dia adormecer e nunca mais acordar. queria tanto isso agora! tanto tanto!
e agora eu parei para ler o que escrevi acima à espera que me soasse a ridículo ou que me fizesse sentir de forma diferente. e a única coisa em que pensei era na reacção ridícula que causaria a vocês. pois se não me fez sentir nada a mim, tanto faz o que possa fazer sentir em vocês!
e esta consciência de ser cruel e egocêntrica desgosta-me. mas é a minha realidade e é com ela que me tenho que confrontar. só isso...
de resto, gosto mto de vocês todos. quem sabe logo eu acorde e isso seja uma das primeiras coisas em que pense (logo a seguir a "onde raios estou eu?") ... então aí eu não me sinto presa em palavras algumas.
:-))*****
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terça-feira, junho 26, 2007
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